O analfabetismo científico no cinema e na televisão, por Jorge Luiz Calife

Posted on 12/08/2011

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Desatualizada: Júlia, personagem de Adriana Esteves, ainda acredita na ‘terra oca’

 

Outro dia eu navegava pela internet e parei para ler a crítica de um romance de ficção científica num desses blogues que proliferam pela rede. O blogueiro não gostara do livro e dizia que a história era uma mera desculpa para um desfile de inovações tecnológicas. Embaixo, uma leitura escreveu: "então não vou ler, pra mim o máximo de tecnologia é uma lareira". O curioso é que ela devia ter usado um computador para entrar naquele blogue e postar sua opinião, ou será que essa mulher consegue se conectar com a lareira da casa dela?

Esta aversão a ciência e tecnologia é mais comum aqui embaixo, nos países do terceiro mundo, mas também aparece em lugares onde a tecnologia é onipresente. Até roteiristas de cinema e autores de telenovela desconhecem o trabalho dos cientistas e não sabem representá-los direito em suas obras. Vejam por exemplo o filme "Thor", que passou há pouco tempo nos cinemas. Nathalie Portman faz uma astrofísica que anda pelo deserto norte-americano pilotando uma van. Como disse o Roger Ebert, desse jeito a carreira dela não vai a lugar algum.

A astrofísica estuda a natureza dos corpos celestes, o funcionamento das estrelas e a estrutura dos planetas. Um astrofísico trabalha em observatórios, analisando informações enviadas por telescópios no espaço, como o Kepler e o Hubble da Nasa  ou então usa grandes radiotelescópios para ouvir os sinais de pulsares e buracos negros. Quem anda de van pelos desertos norte-americanos são os meteorologistas, mais precisamente os caçadores de tornados e outros fenômenos climáticos extremos.

Já a novela das sete da Rede Globo tem uma paleontóloga, interpretada pela Adriana Esteves que parece nunca ter estudado geologia ou geofísica. Num capítulo exibido este mês, Julia, que ficou desempregada, dá aula para uma turma de crianças. Ela começa falando na teoria de Gaia, do ambientalista britânico James Lovelock e depois cita a hipótese da "terra oca" que imaginava a existência de um mundo dentro da Terra. Júlia diz aos alunos que seus pais morreram procurando uma passagem para este mundo subterrâneo.

Parece que o autor de "Morde e Assopra" ainda vive no século dezenove ou então passou muito tempo vendo "Os mutantes" na TV Record, que defendia esse mesmo tipo de disparate científico. Na verdade, a "terra oca" nunca foi uma hipótese científica. Foi uma fantasia criada pelo americano John Cleve Symes que imaginou um mundo oco, habitado por seres fantásticos com uma entrada no pólo norte. Foi uma idéia muito popular no século dezenove e inspirou o famoso romance de Júlio Verne, "Viagem ao centro da Terra". Verne sabia que o pólo norte é um oceano congelado e colocou a entrada para o mundo subterrâneo na cratera do Sneffels, um vulcão situado na Islândia.

Hoje, a idéia do mundo subterrâneo ainda aparece em desenhos animados como a "Liga da Justiça Ilimitada", mas nenhum cientista acredita nessa idéia.

Para entender

A fantasia da terra oca desmoronou em 1798 quando o físico inglês Henry Cavendish mediu a massa do nosso planeta a partir de sua força gravitacional. A partir da massa foi possível calcular a densidade do nosso planeta que é de 5,5 gramas por centímetro cúbico, ou seja, cinco vezes maior que a água.  Só para dar uma idéia, a densidade das rochas que formam a crosta terrestre, como o granito ou o basalto, é de 2,8 gramas por centímetro cúbico.

Estudos a partir da reflexão das ondas sísmicas mostram que o interior da Terra é uma massa de ferro e níquel aquecida a milhares de graus centígrados. Se a personagem de Adriana Esteves cursou realmente uma faculdade ela deveria saber disso.

A ciência e a tecnologia mudaram o nosso mundo e continuam mudando. Mas como selvagens, o povo apenas usa os produtos da tecnologia e finge ignorar de onde eles vieram. As pessoas querem as últimas bugigangas tecnológicas, os celulares e os iPods e passam horas conectadas a rede escrevendo e lendo bobagens. Usando os produtos da ciência enquanto afirmam desprezá-la. Mas a ciência não é uma magia incompreensível cujo domínio fica restrito a uns poucos feiticeiros. Basta um pouco de boa vontade e de boas leituras para entender como tudo funciona. Infelizmente alguns roteiristas e escritores não têm essa boa vontade e só perpetuam a ignorância.

Extraído o sítio Diário do Vale – ultima atualização em 12/08/2011

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