Países emergentes já começam a delinear um modelo de economia verde, diz diretor do Pnuma

Posted on 29/04/2011

0


Apesar de ainda estar longe de haver um acordo geral e consensual sobre o clima, o desenvolvimento de uma economia verde aliada às necessidades econômicas dos países já começa a ser delineado especialmente nos países emergentes, os BRICs, defende Achim Steiner, diretor executivo do Pnuma (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente).
Do grupo dos países emergentes, o Brasil tem sido destaque por apresentar-se como pioneiro na transição para uma economia verde, um processo, que segundo Steiner, já vem dos últimos 20 anos, com políticas para investimentos em energias renováveis, etanol, legislação de cunho ambiental e ênfase na redução do desmatamento na Amazônia.
“Nesta transição para as economias verdes, os emergentes procuram olhar o seu próprio lugar no mercado. O Brasil é um país interessante e pioneiro na transição. Precisamos de mais energia, mobilidade e mais alimentos. Como vamos fazer isso se não mudamos o paradigma econômico? Nenhum país pode fazer isso por conta própria numa economia global onde somos todos competidores”, analisou o representante do Pnuma.
Leia também:
Especialistas preveem que protocolo sobre biodiversidade aprovado na COP-10 terá sanção rápida
Sucesso da COP-16 depende de compromisso e interesse dos países, diz ONU
CoP-16 deve se espelhar na Conferência de Cochabamba, diz especialista
Olhando para a frente após a CoP-15, por Carlos Minc
Cop-15 termina com acordo político, mas sem metas obrigatórias
Achim Steiner conversou com o Opera Mundi durante a sexta edição do Fórum Econômico Mundial da América Latina (World Economic Forum on Latin America 2011, em inglês), no Rio de Janeiro, que reúne cerca de 700 líderes globais e regionais, entre autoridades do setor público, empresarial e instituições da sociedade, para discutir os rumos da economia regional na próxima década.
Após um período de imersão na crise financeira cujo epicentro se originou nos países desenvolvidos e se arrastou por todas as economias mundiais, para Steiner, este é um momento de repensar e até mesmo começar a construir um sistema de economia mais estável que incluiaas questões de mudanças climáticas, meio ambiente, segurança alimentar e segurança energética.
“A crise financeira ficou para trás, mas no fundo, já é o começo de outra porque estamos vivendo um período em que os preços dos alimentos estão flutuando com extremas variações especulativas. Temos que olhar para possíveis formas de recuperação, mas devemos nos perguntar se podemos, mais uma vez, passar por uma nova crise financeira que nos custará outros 3 trilhões dólares para resgatar”, pondera Steiner.
Para ele, emergência das economias dos chamados BRICs – grupo que reúne Brasil, Rússia, Índia e China – tem se distinguido nas negociações internacionais e redirecionado suas decisões políticas, nos últimos cinco anos.
“O mundo não está mais dividido entre as linhas da Guerra Fria entre leste e oeste, norte e sul e sim um complexo de interesses nacionais. Se olharmos nas decisões políticas tomadas pelos emergentes sobre questões climáticas há uma mudança fundamental, especialmente no interesse desses países de fazer investimentos em eficiência energética, diversificação de energias renováveis e em novas tecnologias. A economia global está se encaminhando para uma economia verde”, disse.
O diretor executivo do Pnuma ainda destacou os investimentos recordes em energias renováveis que, segundo último estudo de Tendências Globais de Investimentos em Energia Sustentável 2010, o financiamento de energias sustentáveis locais contabilizaram algo em torno de 200 bilhões de dólares.
De Cancun até Rio+20
Os acordos firmados na COP16 (Conferência das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas), em Cancún, no México, em dezembro de 2010, representam uma continuidade em relação a COP15 em Copenhaguem, na Dinamarca, e evitou a morte súbita do Protocolo de Kyoto, tratado que prevê a redução das emissões de carbono. Contudo, o mundo ainda está distante de um tratado global sobre mudanças climáticas.
“As negociações do clima estão, de fato, com problemas porque o tratado que está posto na mesa, para muitos é injusto e alguns não estão dispostos a se mexer mais rapidamente. Se não há um acordo justo nas negociações, todo o processo das negociações do clima acaba ficando num impasse”, afirmou Steiner.
No sentido de caminhar para uma economia verde, a Rio+20, a Conferência da ONU em Desenvolvimento Sustentável, marcada para maio de 2012, no Rio de Janeiro, será uma oportunidade de rediscutir o conceito de desenvolvimento sustentável.
“O mundo em 1992 é ainda o mesmo? Nós temos que olhar para o futuro e como podemos consolidar as experiências e lições dos últimos anos, mas ainda não se adapta ao tipo de transição e aceleração no sentido de uma economia mais sustentável”, salienta.
Na Rio+20, os líderes de todo o mundo, desde  chefes de Estado e CEOs, terão a oportunidade de discutir o futuro da humanidade e a capacidade de nove bilhões de habitantes até 2050 de viverem juntos neste planeta.
“A conferência do Rio é importante porque, de tempos em tempos, as nações e os líderes tem que se reunir e acordar um paradigma para gerir coletivamente a economia global. Não devemos gastar muito tempo olhando para trás se queremos acelerar. Em 2012, vai ser uma oportunidade de celebrar o ano de 1992 quando definimos o paradigma sustentável. E o que fizemos depois foi um experimento, mas o que o mundo ainda não saiu exitoso foi fazer a mudança de paradigma se tornar uma realidade central”, analisou Steiner.

Extraído do Opera Mundi.

Anúncios