Entenda o que leva a Casa Branca a ser a última a saber das coisas

Posted on 10/03/2011

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Do Vi O Mundo:

por Luiz Carlos Azenha

Os Estados Unidos foram pegos de surpresa pelo 11 de setembro de 2001. Pela ausência das armas de destruição em massa no Iraque (embora, neste caso, tenham também inventado as “provas”). Pela revolução no Oriente Médio.

Uma das explicações? A coleta mambembe de “inteligência”.

Tenho uma dívida com a Natalia Viana, do blog CartaCapital-Wikileaks: ela vazou telegramas com exclusividade para a blogosfera brasileira, mas por absoluta falta de tempo não pude lê-los ou avaliá-los jornalisticamente.

Porém, estou entre os que acreditam que primeiro é preciso publicar os documentos com uma tradução fiel, para servir de futura referência documental — e  depois comentar a respeito.

Portanto, o Viomundo pretende traduzir, publicar e comentar os principais telegramas, mesmo que com atraso em relação a outros espaços.

Fiquem com a nossa tradução do telegrama 246840, preparado pelo Consulado dos Estados Unidos no Rio de Janeiro, em fevereiro do ano eleitoral de 2010:

246840 2/2/2010 19:13 10RIODEJANEIRO32 Consulate Rio De Janeiro UNCLASSIFIED//FOR OFFICIAL USE ONLY

UNCLAS RIO DE JANEIRO 000032 SENSITIVE SIPDIS E.O. 12958: N/A TAGS: PGOV, PREL, BR SUBJECT: VIEWS ON POSSIBLE VP CANDIDATES FOR JOSE SERRA REF: 09 BRASILIA 1486

SUMMARY

1. (SBU) Observadores políticos e atores partidários de todo o país alegam que há uma possibilidade de que o presumido candidato e líder da corrida presidencial José Serra, do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) convide a candidata Marina Silva do Partido Verde (PV) para ser sua candidata a vice. Embora pareça improvável a essa altura que Silva aceite tal papel, a maioria acredita que ela pelo menos daria apoio a Serra num segundo turno contra a candidata do Partido dos Trabalhadores Dilma Rousseff. Desconsiderando a possibilidade Marina, insiders políticos veem como cenário mais provável que o governador de Minas Gerais Aécio Neves (PSDB) eventualmente aceitará se juntar a Serra como candidato a vice, apesar das declarações públicas de Neves de que ele vai concorrer ao Senado.

Embora a diferença decrescente nas pesquisas mais recentes entre Serra e Dilma Rousseff tenha renovado a especulação de que Serra pode desistir em favor de Neves como candidato do PSDB, Serra continua o candidato mais provável, e muitos de nossos interlocutores afirmam que uma chapa Serra-Neves seria a forma mais segura de Serra desafiar com sucesso as tentativas do presidente Lula de traduzir sua própria popularidade em votos para Dilma Rousseff como sua sucessora. Fim do sumário.

OBSERVADORES DO RIO DISCUTEM AS OPÇÕES DE VICE-PRESIDENTE

2. (SBU) Durante um almoço privado no dia 12 de janeiro o proeminente colunista político da revista Veja Diogo Mainardi disse ao Rio Principal Officer que a recente coluna de Mainardi propondo a candidata presidencial do Partido Verde (PV) e ex-ministra do meio ambiente do governo Lula Marina Silva como candidata a vice-presidente ideal na chapa do candidato José Serra (PSDB) nasceu de uma longa conversa entre Serra e Mainardi, na qual Serra disse que Marina Silva seria sua “companheira de chapa dos sonhos”. Serra alinhou naquela conversa com Mainardi as mesmas vantagens que Mainardi mais tarde listou em sua coluna: a história de vida e as credenciais esquerdistas impecáveis de Marina poderiam bater o apelo pessoal de Lula aos brasileiros pobres e colocar Dilma Rousseff (PT) em desvantagem com a esquerda, ao mesmo tempo ajudando Serra a mitigar sua associação com o governo de Fernando Henrique Cardoso que Lula/Dilma esperam usar como ponto de ataque na campanha. Dito isso, Mainardi não espera que Marina “assine” com Serra, já que ela pretende estabelecer suas própria credibilidade concorrendo à presidência. No entanto, Mainardi disse que ele pensa — assim como Serra — que Marina pode apoiar Serra num segundo turno contra Dilma.

3. (SBU) Num nível mais realista, Mainardi indicou ao PO que o governador de Minas Gerais Aécio Neves disse a Mainardi mais cedo, este mês, que Neves continua “completamente aberto” à possibilidade de concorrer como candidato a vice-presidente com Serra. (Nota: No dia 17 de dezembro de 2009, Neves oficialmente terminou sua pré-candidatura a presidente e informou que não tem interesse em concorrer a vice-presidente — reportou reftel. Fim da nota). Apesar das declarações públicas de Neves de que ele vai concorrer ao Senado, Mainardi disse que Neves planeja esperar por um cenário no qual o PSDB, talvez até março, peça a Neves para se juntar à chapa, para assegurar as maiores chances possíveis contra Dilma. As ambições de Neves e a ligação inextrincável delas com o desejo de não atrapalhar o PSDB na próxima campanha, levariam Neves a se juntar à chapa, na opinião de Mainardi. Isso recebeu o eco de Merval Pereira, colunista do jornal de referência do Rio, O Globo, que rememorou ao PO em 21 de janeiro uma conversa que Pereira teve com Neves no dia anterior, na qual Neves disse estar “firmemente compromissado” em ajudar Serra de qualquer maneira, inclusive se juntando à chapa. Uma chapa Serra-Neves, opinou Pereira, venceria, e Pereira pessoalmente acredita que não só Neves concorreria com Serra, mas que Marina também apoiaria Serra em um segundo turno.

4. (SBU) O deputado federal Marcelo Itagiba (PSDB), que está envolvido de perto com a campanha de Serra, disse ao Rio Poloff que Marina era sua clara preferência como vice de Serra. Ele citou os benefícios práticos para a campanha de Serra, mais notadamente o aumento do tempo de televisão que Serra ganharia ao incorporar a fatia de Marina (Comentário: Dado que o tempo [de TV] na campanha partidária é baseado nos assentos legislativos ganhos em 2006 e o resultado mínimo do PV naquela eleição, o aumento de tempo da chapa Serra-Marina seria desprezível. Fim do Comentário). Ao mesmo tempo, Itagiba concordava com a avaliação de Mainardi sobre Neves, afirmando que Neves provavelmente se juntaria à chapa de Serra, se a vitória de Serra no primeiro turno não parecer assegurada. “Se esta for a vontade do partido, Neves vai aceitar”, ele [Itagiba] disse.

5. (SBU) Enquanto o deputado do Rio Otavio Leite (PSDB), líder da minoria na Câmara dos Deputados, disse a Poloff* que não acredita que Marina aceitaria qualquer oferta de VP de Serra, ele afirmou que o PSDB estava contando com o apoio dela [Marina] em um segundo turno. Sobre Neves, Leite ofereceu uma avaliação dissidente dos outros interlocutores do Rio, dizendo que a eleição de Neves no Senado era uma certeza absoluta e seria uma opção muito mais atraente que VP, considerando as ambições presidenciais de Neves, especialmente se o mandato no Senado garantir a presidência do Senado, como muitos acreditam que vá acontecer. Leite avaliou que uma chapa mista com o partido aliado de oposição DEM seria uma possibilidade real, nomeando o senador Jose Agripino do Rio Grande do Norte como um líder na disputa. O deputado federal do Rio Rodrigo Maia, presidente do partido DEM, também confirmou ao Poloff que o nome de Agripino estava numa lista de candidatos a vice de Serra e desconsiderou a vontade de Marina de se juntar à chapa de Serra ou mesmo de apoiá-lo no segundo turno. “Ela vai voltar para o Lula no fim”, Maia disse. “Não podemos contar com ela”. (Comentário: A opinião de Maia sobre Marina Silva reflete uma diferença significativa entre os antigos aliados PSDB e DEM. Os membros do PSDB em geral se sentem confortáveis com Marina, enquanto o DEM, que tem uma base agrária, a vê como filosoficamente incompatível e uma ameaça em potencial para seus interesses econômicos. Fim do Comentário).

VIEW FROM SAO PAULO

6. (SBU) O deputado federal por São Paulo (PSDB) e secretário de Esportes Walter Feldman disse ao Econoff* de São Paulo que uma chapa presidencial unificada do PSDB com Neves fortaleceria as chances de Serra nas eleições de outubro. Descrevendo Serra e Neves como os melhores governadores do Brasil, Feldman expressou confiança de que as conquistas administrativas combinadas de seus mandatos repercutiriam com eleitores pouco impressionados com a performance de Dilma Rousseff como ministra no gabinete do presidente Lula. Em discussões subsequentes com o presidente do PSDB no estado de São Paulo, o presidente do PSDB e deputado federal Antonio Carlos Mendes Thame e o secretário de Governo municipal e insider local do PSDB Clovis Carvalho, ambos disseram ao Econoff que Neves era a escolha dos líderes partidiários para vice-presidente e que eles estavam confiantes de que ele responderia ao chamado.

Ambos enfatizaram que o PSDB precisa ganhar em Minas Gerais e São Paulo para ganhar a presidência e que a melhor forma de fazer isso seria levar Neves à chapa de Serra. Separadamente, Bolivar Lamounier, co-fundador do Instituto de Estudos Políticos e Econômicos de São Paulo (IDESP) e Ricardo Sennes, diretor de assuntos internacionais da firma de consultoria Prospectiva Consultoria Brasileira disseram ao Econoff que esperavam que Marina seguiria com sua própria campanha, mas que daria seu apoio a Serra no segundo turno depois de ter “queimado pontes” com sua saída do PT.

PSDB OUTLOOK IN BRASILIA

7. (SBU) Outros players do PSDB descartaram a possibilidade de uma chapa mista. Embora admitam que Serra prefira ardentemente uma chapa de coalizão e que Neves quer concorrer ao Senado, os senadores Eduardo Azeredo (Minas Gerais) e Alvaro Dias (Parana) disseram ao Poloff de Brasília que os partidários fieis do PSDB querem uma chapa pura do PSDB, e disseram que tal alternativa era provável. O deputado federal de Pernambuco e vice-líder do PSDB na Câmara dos Deputado Bruno Araujo também descartou a possibilidade de Serra convocar um deputado do DEM, deixando implícito nisso que a decrescente popularidade do DEM deixaria Serra com pouco a ganhar com tal chapa, mesmo no Nordeste, onde o partido DEM tem o maior número de eleitos. Em conversas com Poloff nesta semana, dois integrantes senior do staff do PSDB admitiram o interesse de Serra por Marina como candidata a VP, e a descreveram como a mais recente grande ideia entre uma larga minoria dentro do partido, especialmente no Rio e São Paulo. Nenhum deles acreditava que Marina aceitará tal oferta, mas ambos estavam otimistas sobre conseguir o apoio dela no segundo turno.

RECIFE: THE NORTHEASTERN PERSPECTIVE

8. (SBU) O analista político Andre Regis (também advogado, professor da Universidade Federal de Pernambuco e membro ativo do PSDB) disse ao post recentemente que o PSDB acredita que uma chapa Serra-Aécio se daria bem no Nordeste. Embora admitindo que os números de Dilma nas pesquisas tenham melhorado gradualmente na região, Serra ainda tem algumas vantagens sobre ela com eleitores encantados pelo carisma e história do presidente Lula. Admitindo que Serra também sofre com a imagem de tecnocrata mais que político, ele afirmou que Aécio ajudaria a fortalecer a chapa de oposição se aceitasse a nomeação para vice presidente.

9. (SBU) O presidente do PV em Pernambuco Sergio Xavier confidenciou ao post na semana passada que, em sua opinião, Marina Silva manterá sua candidatura própria, mas com certeza apoiará Serra num segundo turno. Ele acrescentou que o PSDB, sendo fraco no Rio, precisa de uma aliança com o PV para beneficiar uma candidatura de Fernando Gabeira a governador (Nota: No dia 26 de janeiro, o PSDB e o PV anunciaram que Marcelo Fortes, VP do PSDB no Rio, seria o companheiro de chapa de Gabeira para governador do estado do Rio. Fim da Nota). Sobre Agripino como possível companheiro de chapa do DEM, contatos em Natal disseram ao PO neste mês que ele pode nem ser reeleito para o Senado, devido à sua imagem antiquada e falta de carisma. Serra não conseguiria o impulso de que necessita no Nordeste se convocasse Agripino, que já esteve implicado em um escândalo de compra de votos no Rio Grande do Norte.

COMMENT

10. (SBU) Com a recente ascensão de Dilma nas pesquisas, a estável popularidade de Lula e o espaço significativo de tempo entre agora e a convenção do PSDB em junho, os fatores que determinam a escolha de Serra para candidato a vice-presidente ainda são muito fluidos para Serra saber qual será o melhor candidato. Com as pesquisas mais recentes mostrando uma margem de apenas um dígito entre Serra e Dilma, surgiu especulação de novo de que Serra pode desistir em favor de Neves como candidato do PSDB se ele pensar que a disputa está muito apertada quando março chegar ao fim. De qualquer forma, Serra ainda é o candidato mais provável e sua busca pelo candidato a VP mais forte continua. Dada a baixa probabilidade de uma chapa Serra-Marina e a possibilidade politicamente inexpedient de uma coalizão PSDB-DEM, os indicadores correntes apontam para uma chapa pura do PSDB. As ambições de Neves, o poder de estrela (star power) e a lealdade ao partido [de Neves] fazem da chapa Serra-Neves uma possibilidade real, apesar dos comentários públicos de Neves em contrário. A popularidade de Neves no Nordeste (base de poder de Lula) e os votos que Neves traria para Serra em Minas Gerais, o segundo maior estado eleitor, constituiriam um desafio muito poderoso às tentativas de Lula de coroar Dilma como sucessora. Fim do comentário.

11. (U) Este telegrama foi coordenado e aprovado pelas embaixada de Brasília e pelos consulados de São Paulo e Recife. HEARNE

*Poloff, political officer

**Econoff, oficcer econômico

*****

Leia o comentário do Miguel do Rosário a respeito.

Leia o comentário da Maria Frô a respeito.

Leia o comentário do Nassif a respeito.

Leia o comentário do Rodrigo Vianna a respeito.

Aqui, a lista de documentos já publicados (em inglês).

Se você quiser, leia e produza textos a partir dos documentos, que publicaremos (desde que, obviamente, mantida a fidelidade canina à verdade factual).

A tradução é do Viomundo e pode ser aperfeiçoada mediante comentário de leitor.

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