Sobre as bactérias da NASA, um bom exemplo de ciência mal feita.

Posted on 08/12/2010

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Quando do anúncio, pela NASA, da descoberta de bactérias que usam o arsênio no lugar do fósforo, uma luz se acendeu no meu desconfiômetro: tem alguma coisa errada! Os jornais acabaram levando, mais uma vez uma barriga daquelas. Foi muito engraçado ler e ver as baboseiras que tomaram conta da mídia em geral. Tolices como “mudar totalmente a definição de vida”, “descoberta de uma nova forma de vida que não usa algum elemento daqueles considerados essenciais”, e por aí vai…

Mas eu sou um mero professor de Ensino Médio. Então vamos dar a palavra aos especialistas:

Do blog Brontossauros em meu Jardim:

A Polêmica do Arsênio

Escrito em: dezembro 8, 2010 9:30 AM, by Carlos Hotta

Acho que todos os meus leitores em potencial já leram sobre o anúncio da NASA na quinta-feira passada. Sim, a tal bactéria que supostamente pode substituir fosfato por arsenato em seu metabolismo. Se não leram, por favor visite os textos que alguns colegas blogueiros escreveram sobre o assunto: Quiprona, Gene Repórter e Geófagos.

Acho que o uso da hype machine da NASA para fazer o anúncio já foi bem discutido: as bactérias do lago Mono não são extraterrestres, não correspondem a uma linhagem evolutiva completamente nova e nem vão reescrever o modo no qual definimos vida. O que quase não vi discutido (no Brasil) é que as tais bactérias talvez nem usem arsenato em seu metabolismo.

A primeira coisa que quis fazer antes de escrever um texto sobre as arseno-bactérias foi ver o artigo científico da Science. Ler o artigo original é essencial para entender o que realmente foi descoberto pelos cientistas da NASA e, principalmente, como isto foi descoberto. Por quê isto é importante? Veja só:

1) os cientistas queriam verificar a hipótese de que arsenato poderia substituir o fosfato no metabolismo de alguns seres vivos. É importante saber isso para perceber como a equipe direcionou os seus experimentos para fazer esta descoberta. Um dos problemas deste tipo de abordagem – totalmente válida – é você fazer somente os testes que comprovam o que você quer comprovar ou, pior, vc acabar gerando sem querer os resultados que você quer. No caso da NASA, os cientistas estavam atrás de vida que sobrevivesse com arsênico, então eles foram em um local com ambiente hostil – o Lago Mono é hipersalino e alcalino – e que possuía concentrações altas de arsênico, pegaram o sedimento do lago e tentaram crescer em meio contendo arsenato. Desta forma, somente as bactérias que conseguiam sobreviver nestas condições sobreviveriam. Eles fizeram isso com concentrações cada vez mais altas de arsenato e cada vez mais baixas de fosfato, efetivamente selecionando bactérias que sobreviviam nas conições. Primeiro erro: as bactérias obtida no final podem ser significantemente diferente das bactérias encontradas no lago.

2) Os cientistas comentam no artigo que não foi possível eliminar totalmente o fosfato no meio. Isto acontece porque os componentes do meio de cultura dado às bactérias possuem contaminantes, entre eles o fosfato. O problema é que bactérias conseguem viver em locais com quantidades ínfimas de fosfato e as quantidades encontradas no meio de cultura poderiam ser o suficiente para fazer as bactérias sobreviverem sem precisar usar arsenato como substituto.

3) Os cientistas dizem que o arsenato foi incorporado ao DNA, RNA, proteína e lipídeos das bactérias – esta sim uma descoberta excitante. Para chegar à esta conclusão, eles destruíram um monte de bactérias e depois tentaram separar seus componentes. Parece difícil mas é algo rotineiro em laboratório. O problema é que o processo de separação não gera somente DNA, por exemplo, mas sim DNA e um monte de contaminantes. O mesmo acontece para RNA, proteínas e lipídeos. Além disso, não houve uma preocupação de se tentar limpar as amostras destes contaminantes – algo também rotineiro. Ou seja: o arsenato detectado no DNA pode não estar incorporado à esta molécula. Para mostrar que o DNA possuía arsenato, seria necessário usar espectrometria de massa, que fragmenta o DNA e mede o peso molecular dos fragmentos. A diferença de peso entre o fósforo e o arsênio é mais do que o suficiente para ser detectada pelo aparelho.

4) Esta eu não sabia, mas dizem os químicos que o arsenato presente no DNA seria rapidamente hidrolisado em água, ou seja, se o DNA extraído pelos cientitas contivesse arsenato, ele se quebraria em água e nem seria medido pela técnica usada pelos cientistas.

Estas objeções. e muito mais, foram levantadas em posts de blogs e têm minado a descoberta anunciada pelo time da NASA. Até que provem o contrário, os cientistas apenas possuem uma bactéria de laboratório que consegue sobreviver em concentrações altas de arsênio e baixas de fósforo. Fascinante mas nem de perto revolucionário.

O mais interessante é que os pesquisadores da NASA, associada à tecnologias de ponta, de canetas à travesseiros, não parecem ter entendido como funciona a internet. Quando foram perguntados sobre as críticas feitas em blogs e artigos de jornais, eles se recusaram a comentar, dizendo que o fórum para debater Ciência é na seção de cartas do periódico em que o artigo foi publicado. Estes pesquisadores, que souberam aproveitar a rede na hora de engraxar seu hype, não são capazes de perceber uma das características mais fascinantes da Ciência 2.0: a possibilidade de se agilizar discussões relevantes de assuntos científicos controversos. Como mencionou alguém no Twitter: é a nova cara da avaliação feitas pelos pares (peer review).

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Posted in: Ciência, Educação