Para rever o Zé Carioca

Posted on 01/10/2010

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Da Carta Capital:

Cynara Menezes 30 de setembro de 2010 às 9:48h

Como o papagaio malandro deixou de ser cidadão de segunda classe e reinventou-se a si próprio

Fiquei vendo dia desses os filmetes do Zé Carioca feitos pela Disney dentro da chamada política de Boa Vizinhança, na década de 1940. E, em espírito oposto ao de Ariel Dorfman e Armand Matellart no famoso livreto “Para Ler o Pato Donald”, de 1972, adorei. São sensacionais. Zé Carioca apresenta o Brasil a Donald com muito samba de primeira: Aurora Miranda, Almirante, Luiz Barbosa batucando o lápis no dente, músicas de Ary Barbosa, Zequinha de Abreu, Ernesto Nazareth… Visualmente são deslumbrantes, frutos de boa pesquisa, com instrumentos genuínos. Vale a pena caçar no youtube (o melhor para mim é “Blame It On the Samba”, de 1948, surreal).

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No livro do chileno Dorfman e do belga Matellart, no compasso esquerdista da época e mais tarde, óbvio, ridicularizado pela emergente direita latino-americana, Donald e sua turma são denunciados como mensageiros de uma ideologia imperialista subliminar, capitalista, com o dinheiro dominando as relações entre os personagens. Outros países que não os EUA (“Patópolis”) eram depreciados, com seus habitantes ridicularizados e mostrados como bárbaros.

Bem, o que acontece nestes curtas do Zé Carioca é o contrário: o Brasil aparece como um país exuberante, alto astral, civilizado, de gente receptiva e amável, e com uma música excepcional. Em “Aquarela do Brasil” (1942), o papagaio oferece ao pato gringo um golinho de cachaça, servida elegantemente à dupla de amigos, em taça, no terraço de um café.

Vendo esses filminhos, de resto divertidíssimos, me pus a matutar sobre esse desvão no tempo, de quando deixamos de ser tão especiais para nos tornarmos meros nativos de uma “república de bananas”, como éramos até outro dia. Por trás daqueles curtas bem-feitos, alguns indicados ao Oscar, havia a intenção deslavada de nos arrebanhar para a causa americana durante a Segunda Guerra, mas não importa. O país que aparece ali é interessantíssimo.

Nos anos seguintes, vieram Juscelino Kubitschek, a bossa nova, e continuávamos cheios de charme para o mundo. O golpe militar nos reduziu àquele tipo de país atrasado que nem presidente elege, e por mais de 20 anos… O Zé Carioca bon-vivant de Disney, de terno, gravata, guarda-chuva e chapéu, foi reduzido ao estereótipo do “morador do morro” visto pelo asfalto: preguiçoso, malandro, adepto da lei de Gérson (“é preciso levar vantagem em tudo, certo?”, pregava o jogador no célebre comercial de 1976). Perseguido por cobradores, ganhando só o suficiente para não morrer de fome e morando num barraco caindo aos pedaços, sem perspectiva nenhuma de vida, o Zé Carioca dos gibis da minha infância era o retrato do brasileiro diante do espelho.

Voltou a democracia, mas em vez de retomarmos nosso destino de nação jovem com futuro, seguimos desimportantes, porque o modelo que se adotou foi o de nos manter à margem, vira-latas assumidos a esperar pela recompensa após apanhar a bola que nos lançavam de longe. Ante nossos próprios olhos, éramos piores que os europeus, que os russos, que os japoneses. Que os norte-americanos, então, nem se fale. Éramos piores, muito piores que os argentinos, que, anos antes de nós, tinham feito a lição de casa ditada pelo FMI e dolarizado a economia, chegando por aqui de férias e pedindo “dáme dos” de tudo que é bugiganga que encontravam. Lembram?

Cidadãos de segunda classe, de um país de perifa que nunca poderia ser levado a sério pela elite mundial. E, por isso, imitava os grandes no que havia de mais “moderno” e “globalizado”. Empresas estatais? Coisa de gente atrasada. “Só no Brasil!” Pós-ditadura militar, nós, brasileiros, éramos tidos como um povo obscuro que era preciso situar de novo no mundo, mas sob as regras de uma autodecretada inferioridade intelectual em relação à cultura dos ditos civilizados. Tínhamos de agradecer aos céus que nos representava um sociólogo da Sorbonne, com um pé na cozinha e outro em Washington. A Zés Cariocas, como nós, o melhor que podia caber era puxar a caravana dos países do Terceiro Mundo, mas sem almejar chegar além. Tal era a nossa sina.
Se a mim, perguntadora por metiê, me pedissem que desse uma só razão para aprovar o governo de Lula, eu responderia: ele prometeu, e cumpriu, trazer nossa auto-estima de volta. O presidente sem estudo formal lembrou-nos das palavras do potiguar Câmara Cascudo – “intelectual de Primeiro Mundo!”, diriam alguns – de que o melhor do Brasil são os brasileiros. Quem há de negar que hoje nos respeitam fora e nos respeitamos a nós mesmos, aqui, por sermos como e quem somos? Sem Sorbonne, Harvard ou Cambridge – talvez uma UERJ aqui, uma PUC ali, uma escola da vida acolá. Mas com amor próprio suficiente para nos sentirmos não superiores, apenas capazes. Somos capazes.

Já sei, intelectualmente sofisticado é dizer “por que não me ufano”. Gostar do próprio país, considerá-lo um bom lugar para se nascer e viver, é visto como simplório. Pois eu acho o Brasil jóia. E os brasileiros, cidadãos de primeira categoria, que sabem bem o que querem, inclusive votar. Zé Carioca, quem diria, soube reinventar a si mesmo.

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Cynara Menezes

Cynara Menezes é jornalista. Atuou no extinto "Jornal da Bahia", em Salvador, onde morava. Em 1989, de Brasília, atuava para diversos órgãos da imprensa. Morou dois anos na Espanha e outros dez em São Paulo, quando colaborou para a "Folha de S. Paulo", "Estadão", "Veja" e para a revista "VIP". Está de volta a Brasília há dois anos e meio, de onde escreve para a CartaCapital.

De lambuja, um dos mais interessantes: “Aquarela do Brasil”

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