Vida artificial?

Posted on 22/05/2010

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Mais perto da vida artificial

Bactéria criada pela equipe de Craig Venter é a primeira célula controlada por um genoma sintético. A proeza abre portas para a produção de microrganismos artificiais que produzam vacinas, biocombustíveis e outras proteínas de interesse econômico.

Por: Bernardo Esteves

Publicado em 21/05/2010 | Atualizado em 21/05/2010

Mais perto da vida artificial Bactérias sintéticas da espécie ‘Mycoplasma mycoides’ controladas por um genoma sintetizado em laboratório. A cepa foi batizada de JCVI-syn1.0, ou versão 1.0 do organismo sintetizado no James Craig Venter Institute (foto: Science/AAAS).

Se você passou por alguma banca de jornais esta manhã, já deve ter visto as manchetes com grande destaque para uma das mais importantes notícias de ciência da década: pela primeira vez, cientistas conseguiram criar uma célula controlada por um genoma inteiramente sintético, criado a partir de instruções de computador.

O genoma da bactéria Mycoplasma mycoides – composto por 1,08 milhão de pares de bases dispostas em um único cromossomo – foi implantado em uma célula natural de outra bactéria cujo núcleo havia sido removido. A célula obtida comportou-se como as bactérias da mesma espécie que ocorrem na natureza e mostrou-se capaz de se reproduzir de forma contínua.

“Trata-se de um trabalho fantástico, um tour de force tecnológico”

O feito é mais uma obra do grupo do geneticista norte-americano Craig Venter, que já havia sintetizado o genoma de uma bactéria e conseguido transplantar o genoma de um microrganismo para outro. A novidade anunciada hoje é fruto de 15 anos de pesquisas de Venter e uma equipe de duas dezenas de pesquisadores, que consumiram cerca de 40 milhões de dólares.

Publicada com destaque na edição de hoje da Science, a proeza foi recebida com entusiasmo por pesquisadores da área. “Trata-se de um trabalho fantástico, um tour de force tecnológico”, avalia o geneticista Sergio Danilo Pena, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e titular da coluna Deriva Genética, da CH On-line.

No futuro, a técnica poderá ser usada para criar microrganismos com genoma artificial que sintetize proteínas de interesse econômico – capazes de descontaminar águas poluídas ou de atuar como vacinas ou biocombustíveis, por exemplo. “Este avanço tecnológico promete possibilidades fantásticas e otimistas de produzir microrganismos capazes de fazer o que quisermos”, resume Sergio Pena.

Genoma sintético, citoplasma natural

O microrganismo produzido pela equipe de Craig Venter tem o genoma da bactéria Mycoplasma mycoides, além de sequências genéticas que atuaram como marcadores inseridos para identificar as sequências sintetizadas em laboratório.

O genoma artificial foi implantado no citoplasma de uma célula não sintética da bactéria Mycoplasma capricolum. A nova célula obtida foi ‘reinicializada’ e o genoma sintético passou a produzir normalmente as proteínas da M. mycoides, exatamente como fazem as bactérias dessa espécie encontradas na natureza.

O grupo enfrentou um grande obstáculo, no entanto: a ‘linha de montagem’ genômica dos laboratórios só é capaz de sintetizar pequenas sequências de bases a cada vez. “A síntese do genoma do Mycoplasma foi espetacular principalmente porque ele foi montado a partir de pequenos fragmentos de cerca de 60 bases apenas – é o máximo que se consegue sintetizar com baixa taxa de erros”, explica Sergio Pena.

Vida artificial?

A notícia da bactéria com o genoma sintético foi publicada com destaque na imprensa de todo o mundo. Alguns pesquisadores se manifestaram com entusiasmo incontido. Em reportagem publicada na própria Science, o filósofo Mark Bedau, editor do periódico Artificial Life, não hesitou em qualificar o feito como “um momento definidor na história da biologia e da biotecnologia”.

Ainda é cedo para dizer que foi criada vida artificial

No Brasil, os grandes jornais também relataram a novidade com otimismo. Mas ainda é cedo para dizer que foi “criada vida artificial”, como destacou O Globo em manchete.  O físico Adilson de Oliveira, professor da Universidade Federal de São Carlos e colunista da CH On-line, pede cautela no texto que publicou hoje em seu blogue sobre a novidade.

“O experimento pode ainda não ter realizado a criação de vida artificial, porque a bactéria receptora ainda foi natural, apenas foi retirado o seu genoma”, lembra Oliveira. “Seu citoplasma ainda permaneceu  cheio de substâncias próprias. Foi como se tivessem trocado o software no hardware de uma célula.”

Seja como for, a novidade suscita esperanças e medo, como lembrou Marcelo Leite em análise publicada na Folha de hoje (disponível para assinantes). E levanta também uma série de novas questões éticas, como reconheceu Craig Venter. “Este é um passo importante tanto do ponto de vista científico quanto filosófico”, disse o geneticista. “Ele certamente mudou minha perspectiva sobre a definição da vida e de como ela funciona.”

Bernardo Esteves
Ciência Hoje On-line

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Posted in: Ciência, Educação