31 de Março! Esquecer, jamais!

Posted on 25/03/2010

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O texto abaixo foi retirado do Blog Viomundo. É para nos lembrar sempre: Abaixo a Ditadura!

Rose Nogueira: Prisão

Depoimento de Rose Nogueira, presa em São Paulo em 4 de novembro de 1969 e solta no dia 3 de julho de 1970. Jornalista, foi militante da Ação Libertadora Nacional (ALN). Publicado no livro “Tiradentes, um presídio da ditadura”:

Era noite do dia 3 para o dia 4. Clauset chegou e só deu tempo de contar que Ana Vilma tinha aparecido um pouco antes dizendo que Penafiel tinha sido preso.

Cacá nasceu em 30 de setembro, no Hospital 9 de julho, em São Paulo. Fórceps. Uma cirurgia por rotura da parede da bexiga e uma sonda me obrigaram a ficar mais de vinte dias internada. Quando a polícia chegou, o bebê tinha 33 dias e estávamos em casa havia mais de uma semana.

Eu mesma abri a porta quando eles tocaram a campainha. Empurraram Frei Fernando – que eu conhecia como Pedro – na minha direção. Eram uns dez, chefiados pelo delegado que respirava fundo e pesado. “Pega tudo, pega tudo”, ele gritava para os outros, que corriam por todo o apartamento abrindo portas, derrubando livros, remexendo roupas feito ratos famintos.
Fernando – ou Pedro – mostrou-me as mãos algemadas. Eu tremia. O bebê dormia no berço amarelo. Nem acordou com a barulheira.

– Vocês estão presos. E o bebê vai para o Juizado de Menores.
– O bebê não vai. E eu só vou com vocês se puder deixá-lo com a minha família.
– Terrorista não tem família, não tem que ter filho. E eu sou curador de menores – ironizou.
– Não sou comunista.
– Olha, moça, eu posso usar violência.
– Pode, mas com o bebê eu não vou.
Respirou fundo, parou e perguntou:
– Onde é que mora sua família?
– Na Vila Olímpia.
– Muito longe. Tem alguém que more mais perto?
– Meus sogros. Moram na rua Rego Freitas.
– Então vamos pensar até amanhã se a gente deixa a criança lá. Você fica aqui, até eu voltar pra te buscar.
Levaram Clauset e Fernando. Fui algemada no braço de madeira do sofá. Dois homens, um alto e corpulento, e outro gordo e baixo, ficaram comigo. E a advertência:
– Eles têm ordem para usar de violência. E se chegar alguém aqui, tá em cana.
Soltaram-me as algemas para que eu pudesse dar de mamar ao menino no quarto. Peito e mamadeira. Até que o baixinho foi lá.
– Ele já dormiu. Pode colocar no berço de novo.
– Mas qual é a diferença?
– Você ouviu: a gente pode usar de violência.
Amanhecia. Os dois ligaram o rádio. Futebol. Naquela noite ia ter Coríntians e Santos de portões abertos. Perguntaram qual era o meu time. Coríntians. Sorriram satisfeitos.
O grandão se levava a sério. Folheava livros, abria papéis, queria saber o que era cada um. Anotações de antigas reportagens, notas de compra, bilhetinhos domésticos, cartas de amor. “Tudo tem que ser anexado”, dizia ao outro.
Prenderam Manoel, fotógrafo do Jornal do Bairro, que foi procurar pelo Clauset a pedido de Abade, o diretor de redação. Um outro rapaz, novinho, também foi preso. E ainda levaram o zelador do prédio, por não preencher uma “ficha de hóspedes” que a lei de exceção obrigava. Quem dormiu algumas vezes lá em casa foi frei Betto. E Carlos Marighella, em períodos separados. Mas o zelador nunca percebeu.
Os tiras se queixavam da falta de sono e ficaram alegres quando o delegado chegou, seguido pelo mesmo séquito, para me buscar. Isso foi na tarde do dia 4.

– O menino fica na Rego Freitas e você inventa uma história. Se abrir a boca, já sabe.
Levaram-me na Veraneio com o bebê. Alguém foi guiando o nosso carro. Na porta do prédio um investigador desceu comigo e avisou que tinha a mão no revólver. Cacá – que na época era só o nenê – ia dentro do moisés azul, um cesto para carregar crianças. Coloquei caixas de fraldas novas e várias mamadeiras na sacola, na esperança de que meus sogros estranhassem e fizessem perguntas.

No apartamento, apenas a empregada, que não percebeu nada. O investigador me obrigou a escrever um bilhete dizendo que ia visitar uma amiga no hospital. Escrevi também a receita da mamadeira, tentando ganhar tempo. Ninguém chegou.
O tira, que tinha nome no diminutivo, como todos, leu, releu e deu a sentença:
– Pode beijar o menino, que a gente está com pressa.

O DEOPS
O barulho no DEOPS era infernal, com os trens da Sorocabana fazendo manobras, engatando vagões. Não sei em que andar fomos parar. A sala era grande, com duas escrivaninhas velhas. O baixinho gordo que passou a noite em minha casa saiu do banheiro com uma toalha no pescoço e os cabelos molhados. Numa parede lateral, uma vitrine com muitas armas. Eram espingardas, fuzis, metralhadoras, todas em pé, enfileiradas.
A sala estava cheia, o entra-e-sai era grande. Muitos presos. Muita gritaria. Lembro-me bem do doce Rabotri e do seu amigo, que chamavam apenas de Marinheiro. Foi para o Marinheiro que o delegado perguntou aos gritos:
– Cadê o Marighella? Hoje ele não escapa!
– Você não é macho? Vai buscar. – respondeu o Marinheiro.
– Pois eu já tô indo mesmo! – gritou o delegado, enquanto lhe dava tapas na cabeça e um pontapé que o jogou no corredor.
Duas moças estavam no sofá verde de couro e uma delas mostrou à outra as mãos trêmulas. Pensei que fossem presas, mas eram policiais e estavam ali, pelos gestos, preparando-se para alguma coisa que consideravam perigosa. Uma era loura, a outra morena. Tinham os cabelos compridos, pareciam moças comuns.
O telefone tocou. O delegado atendeu, desligou e começou a dar ordens aos berros.
– Desce todo mundo para fazer a grade! Todo mundo pra baixo! É hoje! É hoje! Repetia, enquanto tirava rápido, com todos os “inhos”, as armas da vitrine. Gritavam entre si, nervosos.
O corredor era comprido e à esquerda ficavam as celas grandes, que estavam lotadas. Fui para a cela 4, a última do “fundão”, onde já estavam Ana Vilma e Tiana. A cela tinha mais ou menos um metro e meio de largura por três de comprimento. Uma cama estreita de alvenaria, um colchão de palha, uma pia e um vaso sanitário. Era tudo.
Clauset também foi para o “fundão”, junto com José Maria dos Santos, nosso colega da Folha da Tarde. Estavam na cela 3. Na outra cela, dois engenheiros, Roberto Pereira e Manoel Moraes.
A comida veio em prato de plástico com colher também de plástico, sem cabo. Ninguém comeu. Quem servia era Serginho, também preso, com um delegado ruivo e de óculos atrás, olhando e falando bobagens. Esse delegado, que não pertencia à polícia política, dizia que estava preso por ter atirado em uma pessoa por engano na Praia Grande enquanto prendia alguém. Mas colaborava com seus colegas do DEOPS naquela “situação especial”, como dizia.
Logo depois vieram os gritos.

– Mataram o Marighella! Mataram o chefe! Podem ir rezando que o chefe tá morto!
O séquito do delegado invadiu o corredor. Os tiras batiam nas grades das celas, chutavam as paredes, urravam, davam gargalhadas, batiam palmas. A algazarra parecia não se acabar.
Foi uma noite de loucura. Ninguém quis acreditar. Mas era verdade. Para nós, lá do “fundão”, a confirmação veio com a chegada de Makiko Kishi, a repórter fotográfica que trabalhava conosco na Folha, ela foi presa tentando fotografar o lugar onde morreu Marighella, se não me engano.
Preto, Zé Preto, Zé Pretinho. Tanta gente aprendeu com ele a amar a vida e a liberdade. Aqueles homens nem sabiam que Carlos Marighella, poeta, também ensinou que é possível sonhar.

O moisés azul
Um mês ou mais ficamos esquecidos no “fundão”. Outras pessoas chegaram, poucas saíram. Uma companheira foi chamada lá em cima para depor. Aflição. Sabíamos o que significava. Na volta, perguntou:
– Por acaso seu bebê é bem clarinho e tem um moisés azul?
Era sim. Lu tinha um berço-moisés azul. O mesmo onde o tinha carregado para a casa dos meus sogros com a polícia. Mas então… não, eles não fariam isso. Mas fizeram. Tive tanto medo que escrevi na parede: “Eles estão com meu bebê lá em cima”. Mesmo assim não me chamaram. O que significava aquilo?

O leite que eu tirava do seio ainda insistia em vazar e minha blusa cheirava a azedo. A febre aparecia todo dia. O leite me fazia pensar que, enquanto estivesse ali, brotando, eu estaria ligada ao meu filho. Dias depois veio o diminutivo do dia me buscar para depoimento. Empurrava-me pela escada, enquanto gritava: “Vai, miss Brasil! Sobe essa escada logo, sobe!”
Miss Brasil era o nome de uma vaca leiteira que havia sido premiada. E na sala para onde me levou, o “inho” chamava os outros: “Olha a miss Brasil, pessoal! Tá cheia de leite! É a vaca terrorista!“. Eles riam e me beliscavam nas coxas, nas nádegas. Eu gritava e perguntava pelo bebê.
– Pergunta quem faz aqui sou eu. E vamos ver se o nenê chora mais do que você quando a gente for buscar ele de novo.
Era o que eles queriam: que eu soubesse que o bebê esteve lá, que poderiam fazer qualquer coisa. Meu Deus, eles não tinham limites! Ao voltar para a cela, o homem me olhou com ironia e disse: “Mas esse leitinho esse nenê não vai ter mais, não”.
Naquele dia ou no outro trouxeram um médico ou enfermeiro para Vera, uma mocinha de Ribeirão Preto que foi muito torturada. Levaram-na para um quarto que ficava depois da carceragem com o marido, também muito ferido. O mesmo sujeito, vestido de branco, levou-me para a carceragem. Numa mesinha tinha aquela latinha retangular com seringas dentro. Preparou a injeção. Um tira segurava meu braço.
– Quem é você?
– Sou do Pronto Socorro de Santana, que fica aqui na Barra Funda – riu. – Vim aplicar a injeção para cortar o leite.
– Ah, não vou tomar – protestei e perdi a cabeça. Eu não quero tomar essa injeção. Deve estar contaminada. Vocês querem me passar hepatite, qualquer doença. Eu quero ficar com o meu leite!
No desespero, joguei a latinha no chão. O tira gritou, vieram mais dois, que me seguraram. O homem aplicou a injeção na coxa, na parte da frente, ainda com as marcas roxas dos beliscões.
O leite secou logo. Fui para o Tiradentes sem ele.

A família
Só depois pude saber o que aconteceu. A polícia pediu que meus sogros levassem o menino ao DEOPS, mentindo que teríamos visita. É claro que eles foram. E ficaram lá toda uma tarde, acreditando que nos veriam. Fizeram isso duas vezes.
Ao mesmo tempo, quem subia podia vê-los e, naturalmente, me contaria. E a ameaça permanecia no ar.
Na terceira vez chamaram também meus pais. Fizeram perguntas, intimidaram. Nesse mesmo dia nos chamaram e pudemos, Clauset e eu, finalmente, ver nossos pais e nosso filho. Isso foi mais ou menos nas vésperas do Natal de 69. Cacá já tinha quase três meses e sorria.
No dia seguinte o juiz militar decretou nossa prisão preventiva. Fomos para o Tiradentes.

Seu Pascoal
Era um dos carcereiros. Quando soube da história do bebê, naqueles dias, veio me confortar.
– Olha, eu sou católico e não concordo com nada disso. Fui a missa rezar por você. Fique calma. Eles não vão fazer nada com o seu filhinho, não. É só pra te assustar, te ameaçar. Eu vou continuar rezando.

[…]

A chegada ao Tiradentes
– Terrorista! Linda! O que é que você tá fazendo aqui? Me dá um beijo? Cuidado com essa “tia” que ela é xarope!
– Quem são essas mulheres? Por que estão quase sem roupas? Para onde a senhora vai me levar? Cadê meu marido?
– Esquece o marido, esquece o mundão e essa mulherada também, que é tudo “corró” – disse a carcereira gorda que me levava para a torre de dois andares que ficava na parte de trás do Tiradentes.
– Corró?
– De incorrecional.
– O que é isso?
– Vadiagem, minha filha. Putas. Já ouviu falar de putas?
– Mas por isso? Elas têm processos?
– Moral e bons costumes. E só um castigo, entendeu? Não têm processo, nem visita, nem nada. Ficam nuas ou botam a roupa do avesso porque não têm outra pra ir embora. E chega de pergunta.
E virando-se para as grades de onde vinham os gritos:
– Vocês já sabem. Esta aqui é gente fina. É subversiva. Não é pro bico de vocês, não.

[…]

Tchau, pai
Cresci com todo mundo me dizendo que eu era órfã. Meu pai, o caminhoneiro Bernardo, morreu num acidente na antiga estrada Rio-São Paulo quando ia socorrer um amigo que havia tombado com toda a carga. Tinha 27 anos e deixou minha mãe com 21, grávida de sete meses, além de mim, que tinha quatro anos.
Falavam sempre como era bonito, com seus olhos verdes. Era alegre, gostava de dançar e tinha muitos amigos. Perfeito. Meu pai era perfeito. Adoro essa imagem e quero ficar com ela. Perdoem os psicanalistas. Por causa disso e pelo novo casamento de minha mãe, nunca me senti órfã. Afinal, eu tinha um pai maravilhoso que tinha morrido e um outro carinhoso que cuidava de mim.
Seu Maia era 27 anos mais velho que minha mãe. Chamei-o de pai desde o primeiro momento e o amei tanto quanto as minhas “lembranças” do pai verdadeiro. Era viúvo e tinha seis filhos, quatro mais velhos e dois mais novos do que eu. De repente ganhamos, eu e Bernardinho, uma família nova e grande. E ainda vieram Roseli e Rosângela. Foi, com certeza, um dos melhores cozinheiros que conheci. Colecionava livros de culinária portuguesa e francesa, experimentava receitas, gostava de ver a mesa farta. Tinha prazer especial em apresentar e saborear os pratos.
– Sinta este perfume, minha filha – dizia ao destampar a panela. Ensinou-me os segredos dos temperos, das misturas, da temperatura certa. Foi aí mesmo que a vida o pegou: enfartado duas vezes, tinha de suprimir o que mais amava. Aquela comida toda, a manteiga do molho, o perfume que tomava a nossa casa.
– Quem cozinha bem tem a alma generosa dizia. – É melhor gastar no armazém do que na farmácia – era outra de suas frases.
Na visita de fim de ano de 69 para 70 no Tiradentes, preparou um frango para mim. Para minhas companheiras, levou um leitão assado cortado em pedaços com farofa. Falou do vinha d’alhos, da salsinha bem fininha. Disse que não comemorariam o réveillon. Minha mãe não queria. Mesmo assim, levaram-me de presente um vestido estampado de marrom e amarelo com uma echarpe combinando, também amarela. E uma sandália de plataforma e salto anabela, como estava na moda.
Ele não soube que a carcereira derrubou o leitão, ao vasculhar a travessa para procurar sei lá o quê. Não pôde vir mais, nem no meu aniversário em fevereiro. O coração não deixava.
No começo de março, Cidinha me deu uma escova de aço para lixar as paredes, porque havíamos decidido cobrir aquele cinza escuro das celas com tinta branca. Podíamos receber essas coisas. Nair dizia:
“ Força, Rose, força que essa sujeira não sai”. Depois da parede, raspamos o chão de tábuas largas com faca de cozinha. E todo mundo em cima de mim. “Vai, Rose, bota força porque a crosta é muito grossa”. Desconfiei. Que coisa é essa de me ocupar sem parar? Por que todas falavam comigo ao mesmo tempo? Por que ganhei um maço de cigarros a mais? Por que a carcereira veio dizer que eu poderia telefonar para minha mãe? Perguntei e olhei para Dulce. Seus olhos molhados e o queixo trêmulo me confirmaram.
Tchau, pai.

[…]

Inúteis punições
Hoje é 22 de março de 1997 e os editores Alipio e Granville têm o espaço curto. Não sei se o texto está comprido demais. Tenho outras lembranças, claro, e tento chegar o mais perto possível da realidade, embora o tempo às vezes nos maltrate. Mas este não é só um livro de memórias. É também um livro sobre os fatos. Sobre o que aconteceu com milhares de pessoas que ousaram pensar e sonhar um mundo mais bonito.

A tarefa fica agora para historiadores, escritores, economistas sociólogos, artistas e jornalistas na análise e na explicação dos momentos políticos, nos interesses que há por trás de uma ditadura.

Será preciso pelo menos perguntar por que, na América Latina, quase todos os regimes militares terminaram ou se enfraqueceram ao mesmo tempo em que a “era Reagan”, com a cobrança da dívida externa dos países pobres, entrava no ar. Para que então as ditaduras? Em seguida, aparecem os conceitos do tal “consenso de Washington”, além de expressões como globalização e neoliberalismo. O trabalho perde o valor, o desemprego cresce, a miséria se multiplica. O primeiro mundo é um sonho mágico, ao alcance de qualquer barraca de camelô. Miami está ali mesmo. Falar em terceiro mundo está fora de moda. Alguém diz que as ideologias acabaram. Esquerda e direita se confundem, quase se fundem. Afinal, para que mesmo as ditaduras?

Vinte e sete anos depois, descubro que fui punida não apenas pela polícia toda-poderosa daqueles tempos, pela “justiça” militar que me absolveu depois de me deixar por nove meses na prisão, pela luta entre vida e antivida nesse período.
A ordem não-escrita, na época, era não nos deixar trabalhar, não deixar sobreviver. Um dia após ser absolvida, em 71, voltei ao meu trabalho na Editora Pini. Todos os jornais cobriram o julgamento. O porteiro nem me permitiu entrar. Foi logo dizendo: “eles disseram que estavam correndo risco com a senhora aqui e nem sabiam, porque a senhora é terrorista”. Demissão sumária. Esse foi só um caso.

Ao buscar, agora, nos arquivos da Folha de S. Paulo a minha ficha funcional, descubro que, em 9 de dezembro de 1969, quando estava presa no DEOPS, incomunicável, “abandonei” meu emprego de repórter do jornal. Escrito à mão, no alto: ABANDONO. E uma observação oficial: Dispensada de acordo com o artigo 482 – letra ‘i’ da CLT – abandono de emprego”. Por que essa data, 9 de dezembro? Ela coincide exatamente com esse período mais negro, já que eles me “esqueceram” por um mês na cela.
Como é que eu poderia abandonar o emprego, mesmo que quisesse? Todos sabiam que eu estava lá, a alguns quarteirões, no prédio vermelho da praça General Osório. Isso era e continua sendo ilegal em relação às leis trabalhistas e a qualquer outra lei, mesmo na ditadura dos decretos secretos. Além do mais, nesse período, caso estivesse trabalhando, eu estaria em licença-maternidade.

Não sabíamos disso. Nem eu nem Cláudio Abramo, que tentou interferir para me reconduzir ao trabalho na saída da prisão, sem sucesso. Imagino que ninguém da empresa, atualmente, deva saber ou se interessar por esse assunto. A culpa não é deles. Não sei se isso mudou a minha história, a minha vida. Estou viva.

Quem quiser ler a íntegra do depoimento de Rose Nogueira, ele está aqui

Post publicado originalmente pelo Viomundo em 04 de março de 2009 às 17:24

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