Professores do Rio estão mais doentes.

Posted on 21/09/2009

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Diretamente do JB on-line:

Nara Boechat , Jornal do Brasil

RIO – Será votado amanhã, na Câmara Municipal do Rio, o Projeto de Lei 297/2009, que institui o calendário unificado para escolas públicas e privadas da cidade. De autoria do presidente da Comissão de Educação e Cultura da Câmara, o vereador Reimont, o projeto, que já foi aprovado em primeira discussão no dia 3, foi feito após uma discussão com o Sindicato dos Professores do Município do Rio de Janeiro (Sinpro-Rio) e tem o objetivo de “garantir a simultaneidade e integralidade das férias escolares” dos profissionais de educação.

Sem este intervalo para descanso e com o agravamento por outros problemas, como salas de aula superlotadas e a trabalho em áreas consideradas de risco, os educadores cariocas estão ficando doentes, com problemas de voz, estresse, depressão e outros malefícios, cada vez mais comuns atualmente.

– Não ter um calendário escolar unificado tem levado a categoria, tanto da rede pública quanto da privada, ao esgotamento físico e mental, mostrado pelo excessivo afastamento para tratamentos – diz Reimont.

De acordo com o Sindicato dos Professores do Município do Rio de Janeiro e Região (Sinpro-Rio), atualmente 45% desses profissionais estão com problemas de voz, a maioria causada por problemas emocionais, e 50% das licenças médicas no trabalho têm origem em causas psicológicas.

Segundo o presidente do Sinpro-Rio, Wanderley Quedo, 30,4% dos professores do Rio tem a Síndrome de Burnout, que é um distúrbio de caráter depressivo, precedido pelo esgotamento físico e mental – do inglês “to burn out”, que significa queimar por completo – e, com o projeto, ele pretende esclarecer mais sobre o caso.

– Esta lei atingiria cerca de 200 mil professores e 12 milhões de alunos do município do Rio – afirma Quedo.

Problemas de voz

O professor de história, Flávio Peixoto Grey, de 43 anos, ficou cerca de quatro meses afastado das três escolas em que trabalha – estado, município e outra particular –, devido a uma fadiga nas cordas vocais. Segundo Flávio, a decisão de dar aulas em mais de um lugar se deve à baixa remuneração e, como muitas não possuem condições necessárias para o exercício da profissão, ele acabou ficando doente.

– As salas de aula não foram projetadas para o professor falar. Temos que abrir as janelas, por ser um lugar muito quente, e acabamos tendo que competir com o barulho de fora, além da competição de voz com o número excessivo de alunos, que passa do limite de 50 por sala – esclarece Grey, que já voltou a trabalhar nas escolas do município e particular e está trabalhando na biblioteca do colégio estadual, temporariamente

– O governo só começa o tratamento quando o problema acontece, não há uma prevenção para isso. Ouvi dizer que agora há um projeto no estado para colocar microfones em salas de aula – acrescenta o professor.

De acordo com o subsecretário estadual de Gestão e Recursos, Sérgio Mendes, este sistema foi implementado no início deste ano letivo e há quatro meses, todos os colégios do estado do Rio já estão com microfones.

– Em todas as unidades estão disponíveis microfones com amplificador individual. O professor que quiser pode decidir que se quer colocar o tipo lapela ou o que chamamos de kit Madonna, para quem quer ficar com as mãos livres.

Áreas de risco

Outras causas de licenças médicas bastante observadas nesta categoria são estresse e depressão. Além dos motivos descritos acima, a proximidade com a violência é um fator de peso para fazer com que professores cheguem ao seus limites.

Com problemas de síndrome do pânico e hipertensão, o professor Rubens Barbosa Silva, de 57 anos, tirou licença de um mês das duas escolas, localizadas próximo ao Complexo do Alemão, pois “havia chegado à exaustão”.

– Fiquei hipertenso por causa do trabalho, pois a gente vive em tensão permanente com medo da violência. Além disso, as condições de trabalho são péssimas. Não há inspetores tomando conta dos corredores, então, além de professores, viramos inspetores, recreadores, tudo – desabafa Rubens, que dá aulas para mais de 200 alunos por dia.

Para o juiz da 26ª Vara de Trabalho, Marcelo Segal, afirma que é comprovado que trabalhar em áreas consideradas de risco gera problemas de saúde, devido à constante sensação de aflição.

– É uma situação conhecida de todos, mas o problema é que a lei não prevê casos como este, do cotidiano, diferente do assédio moral e sexual.

Já o médico legista, Roger Ancillotti, acredita que o grande problema é que os governos não entendem a situação e acabam não oferecendo assistência psicológica para estes profissionais.

– Trabalhar no que não gosta, fazer vários bicos, acrescidos do medo com a violência, são pratos cheios para a depressão e estresse – informa o médico.

Rubens está em tratamento, mas já voltou a dar aulas em uma das escolas em que trabalha.

– É muito desgastante. Eu já me sinto como um remédio fora da validade, fazendo mal aos alunos.

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Posted in: Educação